22 de abril de 2011

Ariano Suassuna fala sobre a vida e a arte







SERÁ QUE UMA OBRA DE ARTE precisa mesmo de explicações do autor para enfrentar o público? Será que a visão que o autor tem de sua obra não é a mais deformada de todas? Não sei, mas acredito que é muito difícil, sem traição a ela, explicar ou ordenar os múltiplos aspectos e sentidos que tem — ou pelo menos deve ter — uma peça de teatro. O fato é que a peça é um tumulto, e as opiniões que se formam em torno dela é outro; o que, de certa forma, nos autoriza a procurar, na medida do possível, um sentido para aquilo que talvez nenhum sentido claro possua.
Com isso, não quero dizer que, ao escrever a peça, tenha conseguido fazer tudo o que pretendi ao imaginá-la. E quem o consegue? A obra que se apresenta ao público, qualquer que seja ela, é o resultado de duas derrotas: a primeira, porque o artista jamais conseguirá se equiparar à mobilidade, à vida, à riqueza, à contínua invenção da realidade; a segunda, porque depois de inventar sua obra — que não é senão uma tentativa de resposta domada, clarificada e ordenada ao que o mundo contém de feroz, de disperso e selvagem — nunca consegue ele imprimir na obra tudo o que desejou e entreviu no momento da criação.
Mal saído dessas duas derrotas, o artista entrega a obra ao público e à crítica.   E ei-lo diante de algo misterioso, terrível e perturbador, porque absolutamente imprevisível.
Às vezes, a obra é aceita pelo público e recusada pela crítica, às vezes acontece o contrário, às vezes ambos se juntam, a favor ou contra. Às vezes, depois de um julgamento que parecia definitivo, ambos se arrependem.
Na maioria dos casos, porém — e isso é, para mim, o mais incompreensível —, tanto o público como a crítica se dividem.  Uma vez, um amigo me mandou um recorte de jornal com o resultado de uma estatística dessas que certas organizações costumam fazer com inquéritos, junto ao público, na saída dos espetáculos. O resultado foi, para mim, algo surpreendente e terrificante. Eu nunca vira nenhuma delas; aceitaria de bom grado que as opiniões fossem unânimes, contra ou a favor. Mas nada disso acontecia. A peça considerada melhor pela estatística apresentava o seguinte resultado: 58 pessoas tinham dito que ela era ótima, 34 que era boa, três que era simplesmente regular e cinco que era decididamente ruim. Da peça considerada estatisticamente pior, o resultado era o seguinte: 18 pessoas tinham-na considerado má, 31 regular, 33 boa e 18 ótima.
Meu Deus, que misterioso critério de julgamento levou aquelas cinco pessoas a considerarem mau um espetáculo que outras 58 diziam ser ótimo e outras 34 diziam ser bom? E que outra imprevisível escala de apreciação levou, no segundo caso, aquelas 18 pessoas a acharem ótima uma peça que outras 18 achavam decididamente má?
É para nos desanimar, é mesmo para tirar conclusões pouco democráticas, no domínio da arte. Mas assim vai o mundo, e, ao que parece, pior do que o escuro em que nos debatemos é a mania de ser dono da luz. Assim, confessando que talvez esteja ainda mais no escuro do que os outros sobre o que faço, tento aqui a ordenação — ou uma das ordenações possíveis — para o mundo tumultuoso que inventei, não sei bem por que nem para quê.
Para isso, gostaria de esclarecer que, em certo sentido — e somente assim, porque, no fundo, isto ê uma simples história —, O santo e a porca apresenta a traição que a vida, de uma forma ou de outra, termina fazendo a todos nós. A vida é traição, uma traição contínua. Traição nossa a Deus e aos seres que mais amamos. Traição dos acontecimentos a nós, dentro do absurdo de nossa condição, pois, de um ponto de vista meramente humano, a morte, por exemplo, não só não tem sentido, como retira toda e qualquer possibilidade de sentido à vida.
É desta traição que Euricão Arábe subitamente se apercebe, é esta visão perturbadora e terrível que lhe aponta os homens como escravos — como escravos  fundamentais e não só do ponto de vista social, como um crítico entendeu apontava —, isto é, como eles próprios se veriam a instante, não fossem as preocupações, a cegueira voluntária e involuntária, as distrações e divertimentos, a covardia, tudo enfim que nos ajuda a "ir levando a vida" enquanto a morte não chega e que faz desta aventura — que se fosse sem Deus era sem sentido — um aglomerado suportável de cotidiano.
Para indicar isso, aproveitei, entre outras coisas, a circunstância de ser Euricão Engole-Cobra um estrangeiro, um "arábe", como se diz, no sertão, dos sírios, árabes e turcos enraizados, e insinuei, através disso, nossa própria condição de desterrados: "Não temos, aqui, cidade permanente" (Hebreus 13,14). Detesto os símbolos: quando Euricão fala nisso, não está simbolizando nada nem ninguém, o que prejudicaria, a meu ver, sua vida de personagem de teatro; está aludindo a uma circunstância real, pelo que me permiti essa exceção que, não prejudicando a vida e a verdade do personagem Euricão, pôde servir para dar à perda da porca o sentido do absurdo de toda a vida. Porque a perda da porca é muito grave no caso particular dele. Euricão sacrificou toda a existência a ela — ao mundo, portanto, à segurança, à vida tranquila, feliz e rotineira — , furtando a sua própria alma, como ele mesmo diz repetindo seu modelo Euclião, personagem de Plauto; e o ídolo termina por traí-lo, deixando-o solitário e abandonado diante da morte. Como afinal acontece a todos nós, quando perdemos nossa casa, nossa fábrica, nosso automóvel, nosso nariz — como aconteceu ao personagem de Gogol —, nossa amante ou nossas pernas.
Isto, quanto à porca. Ela apresenta a vida como um impasse, cuja única saída é Deus.  "Se Deus não existe, tudo é permitido", dizia Ivan Karamázov, isto é, o mundo moral ficaria inteiramente destituído de sentido.
E claro que não sou nenhum Dostoievski nem estou, nem de longe, comparando as duas obras, mas sim comentando uma semelhança de situações; pois o que Euricão descobre, de repente, esmagado, é que, se Deus não existe, tudo é absurdo. E, com esta descoberta, volta-se novamente para a única saída existente em seu impasse, a humilde crença de sua mocidade, o caminho do santo, Deus, que ele seguiria num primeiro impulso, mas do qual fora desviado aos poucos, inteiramente, pela idolatria do dinheiro, da segurança, do poder, do mundo.
Mas, se possível, olhem esta peça — assim como o conjunto de meu trabalho de escritor, dentro do qual ela, como todas as outras, deve ser entendida—antes de tudo como uma história, contada por uma pessoa, mas que mantém um contato profundo e amoroso com a vida. Considero-me um realista, mas sou realista não à maneira naturalista — que falseia a vida — mas à maneira de nossa maravilhosa literatura popular, que transfigura a vida com a imaginação para ser fiel à vida. Não tem sentido, portanto, dadas as características de meu teatro, dizer como disseram alguns críticos ilustres, que é inverossímil que um avarento ignorasse uma operação bancária e perdesse, assim, seu tesouro. Em primeiro lugar, mesmo que isso fosse impossível na vida, não o seria em meu teatro, onde um cangaceiro se deixa enganar por uma flauta e um conto-do-vigário — no caso, o Padre Cícero — e onde os anjos se vestem de judeus e os diabos de frades ou de vaqueiros; e em segundo lugar, mesmo na vida, o caso é tão possível que aconteceu; foi em Taperoá, com uma pessoa avarenta, por sinal pertencente à minha família. Na agência do Banco do Brasil, em Campina Grande, onde ela foi trocar seu dinheiro, avisada por um tio meu, juntou gente para ver aquelas notas, guardadas durante tanto tempo que ninguém as conhecia mais.
O que eu procuro atingir, portanto, é se não a verdade do mundo, a verdade de meu mundo, afinal inapreensível em sua totalidade, mas mesmo assim, ou por isso mesmo, tentador e belo, com seu sol luminoso e selvagem, tão selvagem que não podemos vê-lo. Procuro me aproximar dele com as histórias, os mitos, os personagens, as cabras, as pedras, o planalto seco e frio de minha região parda, pedregosa e empoeirada. Esta visão ardente — grosseira e harmoniosa, ao mesmo tempo — é o cerne para onde se dirige meu trabalho de escritor. Admito, a exemplo do que acontece com o público e com a arte popular de minha região — o mamulengo, o romanceiro —, a mentira geral do teatro para que isso me possibilite comunicar aos outros, na medida de minhas forças, a substância deste mundo. Nunca o teatro conseguirá reproduzir a vida, que se reinventa a cada instante. Assim, sem exageros que acabem a ilusão consentida do público, é melhor não apelar para as muletas do verismo nem esconder as traves da arquitetura teatral — sejam as do autor, as do encenador ou as dos atores, pois todos nós temos as nossas; assim o público, vendo que não pretendemos enganá-lo, que não queremos competir com a vida, aceita nossos andaimes de papel, madeira e cola e pode, graças a essa generosidade, participar de nossa maravilhosa realidade transfigurada. A vida e o mundo são os motivos, que aparecem transfigurados, no teatro. Meu teatro procura se aproximar da parte do mundo que me foi dada; um mundo de sol e de poeira, como o que conheci em minha infância, com atores ambulantes ou bonecos de mamulengo representando gente comum e às vezes representando atores, com cangaceiros, santos, poderosos, assassinos, ladrões, palhaços, prostitutas, juízes, avarentos, luxuriosos,  medíocres, homens e mulheres de bem — enfim, um mundo de que não estejam ausentes — se não no teatro, que não é disso, mas na poesia ou na novela — nem mesmo os seres da vida mais humilde, as pastagens, o gado, as pedras, todo este conjunto de que o sertão está povoado.
Isto é o que venho procurando fazer. Sei que é um plano ambicioso, mas não posso estar pensando nisso, nem em se venho ou não conseguindo pô-lo em prática: terminaria ficando desesperado.
Assim, tendo dito o que quis fazer, entrego a peça aos leitores: que eles a julguem novamente, como já aconteceu com o público que a viu no palco. E, se o que disse aqui contribuiu para um maior entendimento entre nós, dou-me por satisfeito.


Ariano Suassuna - do início do livro "O Santo e a Porca" de 1964.



















21 de abril de 2011

Espiral

Além das Ilusões








Agora é Maya que se aproxima, com seu eterno problema: relacionamento.
Ela fala de seu namorado de dois anos atrás, Anando, um escultor, bastante carismático.

MAYA: Quando eu estava com o Anando eu sentia um incrível fluir, um êxtase – era lindo. 
Desde então eu tenho tido relacionamentos, mas eles não são a mesma coisa, nem têm a mesma intensidade, nem a mesma magia. Eu me sinto apegada ao Anando, à sua imagem.
Eu não sei se isto é um apego neurótico ou se nós somos almas gêmeas.
O que devo fazer?

OSHO: Tudo isso são ilusões que pouco a pouco irão desaparecer. 
O primeiro amor é sempre muito extático, porque é a primeira ilusão. Na segunda vez, você está um pouco mais madura e então já não é do mesmo jeito. Na terceira vez, você já conhece tudo por dentro e por fora, e fica pensando que talvez o motivo seja a pessoa. Não é. Se você voltar a ter novamente um relacionamento com ele, você ficará desiludida. 
Não haverá aquela magia de novo. Aquela magia não pode voltar, não tem jeito. 
O primeiro amor tem uma magia que o segundo não consegue ter.
E mesmo se você permanecer com aquele namorado, a magia também irá desaparecer. Isto nada tem a ver com você mudar de namorado. Mesmo se você se casar com a pessoa e viver com ela para o resto de sua vida, aqueles dias de lua de mel nunca mais voltarão. 
É por isto que existe lua de mel. Toda a vida da pessoa será apenas uma lembrança, uma nostalgia. Tudo isso são ilusões – belas ilusões, doces sonhos, mas sonhos, todos iguais.
A pessoa tem que amadurecer e ela só amadurece ao experienciar frustrações. 
Um nó é desfeito, depois outro nó é desfeito. Isto machuca.
A pessoa fica brava, com raiva, mas aos poucos ela vai compreendendo que chegará o dia em que todos os brinquedos serão tirados dela. Este é o caminho do crescimento. 
Um dia chegará, e este será o mais afortunado dos dias, quando você puder viver sem ilusões, quando puder viver sem magias, quando puder viver tranquilamente, silenciosamente, sem qualquer anseio por excitações. E então um tipo totalmente diferente de vida começará a crescer em você. Tal vida tem valor e verdade. 

Esses casos amorosos, esses relacionamentos, são bons, mas eles têm que passar. 
Eu não sou contra eles. Quando os chamo de ilusões, eu não estou dizendo que sou contra eles. Eu sou totalmente a favor deles, porque você somente consegue crescer, através dessas ilusões. Você   somente consegue crescer através de frustrações, não existe outra maneira. Cada sucesso e cada fracasso contribuem para o crescimento. 
O fracasso contribui mais que o sucesso, pois o sucesso cria mais ilusões enquanto o fracasso simplesmente abre seus olhos para a realidade. A mente não quer ver a realidade, assim ela continua tramando novos sonhos.

Agora a mente está   pensando ‘Talvez nós sejamos almas gêmeas’. Ninguém é. 
Mas a verdade dói muito. Por isto as pessoas não gostam dela. 
Elas gostam de viver na ilusão, elas gostam quando suas ilusões são melhoradas e reforçadas. Apenas olhe bem dentro de seu coração: no fundo, você gostaria que a sua ilusão fosse reforçada, que eu a reforçasse, que eu a alimentasse, que eu cuidasse dela. 
Mas eu não posso fazer isto. E você não precisa disso mais.  Quando eu vejo que alguém precisa disso, eu reforço.  Reforço a ilusão e continuo reforçando até chegar o ponto em que sei que a ilusão pode se despedaçar. A sua hora já chegou, ela tem que ser despedaçada – chega de ilusões. 
E há um tipo de amor que surge quando todas as ilusões desaparecem. É o que eu chamo de amor verdadeiro. A não ser este amor, todos os demais são infantilidades, são do tipo ‘amor ao seu animalzinho de estimação’. Você pode crescer neste exato momento ou pode voltar novamente ao círculo vicioso. E este tem sido o seu esforço: trocando de namorados, em busca daquele êxtase. Ele não vai acontecer. 

Não é por acidente que todas as civilizações no passado insistiram na virgindade. 
Isto tem uma certa razão: se a mulher permanecer virgem, então o casamento começará com uma grande magia. Se a mulher não é virgem, então o casamento começará sem aquela ilusão.
E lembre-se: o homem nunca sente aquele tipo de êxtase que a mulher sente, porque o homem vive mais na cabeça que no coração. Ele é mais matemático que mágico, ele calcula.  Assim, todas as velhas civilizações permitiram ao homem perder sua virgindade.  Isto não era um grande problema, porque mesmo o seu primeiro amor não é grande, assim ele não vai perder muito. Isto nada tem a ver com desigualdade entre homens e mulheres, como o movimento ‘Lib’ gostaria que fosse. A verdade é que o homem não tem uma energia mágica a respeito do amor; o seu amor permanece uma coisa entre outras coisas.  Algumas vezes a sua magia é liberada mais através de outras coisas do que através do amor. 

Aquela ilusão nunca voltará; E não pense que isto é alguma coisa infeliz. A pessoa tem que ir além da ilusão. Existe uma outra magia para ser conhecida. O amor é uma magia muito biológica, hormonal, química. Injetando alguma química, aquela magia pode ser melhorada, induzida, muita coisa pode ser feita àquela magia. Ela não é muito espiritual nem muito significante. Busque. Existe uma outra magia. Isto é o que estou tentando tornar disponível aqui: a outra magia. 
E existe uma magia que vem através da verdade. Somente esta é duradoura; somente esta é eterna.

 A magia que vem junto com uma mentira vai desaparecer mais cedo ou mais tarde. 
O chamado amor é um truque biológico. A natureza tem enganado as pessoas.
A natureza quer persistir, ela quer viver, ela quer continuar a vida. Ela ilude as pessoas através do amor. O amor é um truque da natureza para manter a vida fluindo. Você pode morrer, mas seus filhos continuarão a viver, e depois os filhos deles.  Se o amor desaparecer, quem vai querer reproduzir crianças? Aquela magia tem um propósito em si. 

Mas existe um outro tipo de magia que surge como uma fragrância da verdade.  Agora procure por ela. E eu não estou lhe dizendo para parar de se relacionar com as pessoas. Relacione-se, mas sabendo que um jogo é um jogo. Jogue-o, e jogue com beleza e arte, esteticamente. Mas, já é tempo de você tornar-se um pouco mais madura. 

Procure internamente agora. Permita que a meditação seja o seu amor agora. 
Todos os relacionamentos devem continuar na periferia, mas não invista muito neles e não anseie por aquele paraíso perdido. Ele nunca será recuperado. Se você quiser recuperá-lo, terá que renascer novamente. Somente quando ele for de novo o primeiro amor e você tiver se esquecido completamente dele, então poderá ser novamente iludida por ele, não de outra maneira.  
Maya, mm? Veja o nome que eu lhe dei! Maya significa ilusão.

                                     
  
OSHO – (A Darshan Diary)
                                          
 Tradução: Sw. Bodhi Champak: OSHO BRASIL


OSHO INTERNATIONAL FOUNDATION, Suiça. 

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1 de abril de 2011

Reflexões Sobre a Calúnia

         

           

Algumas pessoas tomam-me por muito séria e irritam-se barbaramente acusando-me de que não sei brincar. Enganam-se os que ainda não me conhecem, pois o que de fato não gosto é de sarcasmo,  policiais-palhaços do comportamento alheio e cabras- cegas de si próprios... (Use de ironia com eles pra ver sua reação... PIMENTA NOS OLHOS DOS OUTROS É REFRESCO) . Típica manifestação de espíritos que se recusam a amadurecer e uma clara demonstração de uma personalidade arrogante e superficial. Por que não riem de si mesmos? Isso com certeza os faria mais puros.
                                                                                                                                                                 
Gosto de rir, de brincar, gosto sim. Mas admiro a brincadeira saudável, inofensiva, que deixa um gosto bom no final do riso... Um gosto de Sol.  Às vezes perdemos tempo com pessoas que em nada se assemelham a nós em termos de humor e de humanidade. Por compaixão nos aproximamos delas na hora de sua dor e não sabemos que ali se esconde uma vida complicada, enredada na maldade e na amargura mal dissimulada. Acabamos nos embrenhando em florestas densas de medo, áridos desertos de  desgosto e tentando ajudá-las, nos afundamos, esquecendo o que nos motivou a princípio, a dispor nossa atenção e dedicação. Então percebemos que já tentamos de tudo, e nunca foi suficiente...
Eu não tenho vergonha de admitir que sou impotente em relação a problemas de certas pessoas e que ainda tenho que aprender a ajudar quem eu posso, sem me envolver em suas leviandades contra a vida. Pode uma borboleta aparar um elefante em um trapézio? Não. Devemos reconhecer que a cada um cabe a responsabilidade de ascender seu próprio espírito. Devemos ajudar o próximo? Sim. Mas só quem podemos e não além das nossas forças. É mais fácil ele te levar para o buraco do que você conseguir o feito de reerguê-lo da lama. Portanto, devemos primeiro ajudar a nós mesmos e isso sem egoísmo ou egocentrismo. Podemos mudar o próximo só por capricho pessoal? Não. Não temos esse direito. Posso no máximo tentar mostrar a ele uma outra realidade. 
Contudo, ninguém tem o direito de invadir a minha vida e tirar a minha paz. Ninguém. 

Quando constatar que não pode ajudar, só lhe resta fazer uma oração de misericórdia...





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Segue agora uma mensagem de Joana de Angelis:







OS ADVERSÁRIOS, MESTRES OPORTUNOS


19 de março de 2011

...

 
 
A pior ignorância não é a de quem não sabe, mas a de quem não sabe e pensa que sabe.
              - nayre


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14 de março de 2011

Eles. Esses Imortais...

 
"...conheci razoavelmente Clarice Lispector. Ela era infelicíssima. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo..."
 
 "... falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literalmente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida". Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria "trip" e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce, como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud. É esse o tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço. Ou então você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci/conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. Raramente me engano.." 
 
 
Caio Fernando Abreu  

Está na edição de "Morangos Mofados", da Agir, 2005. Trata-se de uma carta de Caio ao amigo José Márcio Penido, em que ele discute o processo de criação de "morangos...". E mais: chama a escolher o tipo de criadores que só nós podemos ser, em qualquer linguagem artística. Viva a escrita desenfreada de Caio neste dia da poesia!!! 
(Ney Paiva - escritor e poeta)
 

10 de março de 2011

O sadismo e o masoquismo dos nossos tempos

        

Agora quero falar um pouco sobre um assunto frequentemente maquiado no nosso dia-a-dia e vendido - superficial e inconscientemente como uma força necessária para se manter o "equillíbrio" da satisfação entre casais modernos. O sadomasoquismo (psicológico ou físico) que se faz muito presente entre a nova geração de adultos e já começa a ser um dos quesitos básicos para quem quer ser "descolado" (pseudo-sábio) no que se refere aos requintes de prazer na hora do sexo. 

***

Doença, tendência natural ou falta de equilíbrio pessoal? 

A vida, para ser valorizada, precisa ser vasculhada em toda a sua extensão, por isso decidi observar, mergulhando na psicopatologia, pelas portas das trevas adentro, sem me envolver  diretamente,  para poder entender e apreciar melhor as alturas Etéreas.

Bem, para começar, vamos lembrar quem foi o homem  precursor desta prática um tanto antiga: o parisiense Donatien Alphonse François de Sade, o marquês de Sade (* 1740 /  + 1814)  foi um aristocrata francês e escritor libertino. Muitas das suas obras foram escritas enquanto estava na Prisão da Bastilha, encarcerado diversas vezes, inclusive por Napoleão Bonaparte. De seu nome surge o termo médico sadismo, que define a perversão sexual de ter prazer na dor física ou moral do parceiro ou parceiros.

O criador desse tipo de fetiche era um aristocrata.  Sim, porque muito provavelmente uma  pessoa que sinta a necessidade de ser agredida ou agredir outra e ainda sentir prazer (alívio fisico) o faz pelo simples fato de sua vida ser branda demais... Tudo certinho, educação rígida em casa, falta de situações de risco, pois não lhes falta nada  e sobra O Quê? TÉDIO... Muito tédio.

Já notaram que pessoas mais despojadas como monges, eremitas urbanos e gente mais simples não se interessam por esse tipo de loucura, não vão atrás de situações perigosas porque a vida delas já é um martírio? Passam por provações diárias e o que elas mais querem é viver em paz, amar em paz. 
Há uma busca constante pela luz, não pelo perigo.

A pessoa endinheirada, aquela que não precisa se preocupar com o aspecto material, pois está cercada pela riqueza, passa longas fases à procura de loucura, tempestades mentais, paixões avassaladoras e trovoadas ressonantes... Ela precisa disso! Claro. São elementos em falta no seu sangue, precisa escoar essa energia, toda essa adrenalina e hormônios, pois tem uma vida muito cerceada, se aborrece facilmente, carece de aventura. Li num livro de Moacyr Scliar que pessoas cujo genitor se comportou com elas de maneira autoritária e rígida, têm tendência a sentir prazer (quase que sexual mesmo) em maltratar o amante ou parceiro. Assimilaram e reproduziram o comportamento do pai como compensação e auto-afirmação.

Já o asceta, aquele que se priva de prazeres mais vulgares, não busca cegamente o que é psicologicamente desequilibrante, pois sente necessidade de um outro tipo de prazer, é um outro nível de percepção. Ele só deseja paz de espírito, pois sabe que a única forma de sentir o profundo gosto das coisas é estando limpo.  

Hoje entendo aquela frase: "É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no reino dos céus". É a velha constatação de que a matéria nos torna insaciáveis... A matéria e tudo o que se busca fora de si mesmo, nunca irá saciar ninguém. Por isso concordo com Osho quando ele diz: "Sê inteiro para amar, não existe a outra parte da laranja..." Não busquemos o equilíbrio fora, passando a responsabilidade da nossa felicidade para outra pessoa, mas sejamos inteiros para encontrar  antes de tudo o equilíbrio dentro de si. Como disse Jesus: "largue o pai, a mãe, os bens e me siga", ou seja, siga a luz crística que habita em você e não as coisas mundanas... Mas poucas pessoas sabem o que é isso, enfim... Cada um tem o seu ópium e seu grau º de consciência.

Fico pensando na minha vida... Aparentemente sóbria, simples e básica... Mas dentro de mim uma infinidade de nuances cintila diariamente. Eu não busco o sexo... Por incrível que pareça, quanto mais fujo dele, mais ele me persegue... Mas por enquanto eu só quero morrer por 1/2 hora de um orgasmo mental no chakra coronário, afinal, eu já estou de cara mesmo... 

Porque algumas pessoas são afortunadas e outras não? Resposta - Ter dinheiro nem sempre é sinal de prosperidade. Parto do princípio de que devemos buscar primeiro as coisas do espírito e todo o restante (em prazer) nos será turbinadamente acrescentado, mas quantos estão acordados para essa realidade? Quantos estão preparados para pagar o preço de ser feliz ? Recebemos exatamente aquilo que buscamos. Mas será que você tem procurado no lugar certo?


 Nayre

"Um homem não pode fazer o certo numa área da vida, enquanto está ocupado em fazer o errado em outra. A vida é um todo indivisível." (Mahatma Gandhi)

 Link: 
Quando a roleta russa do sexo dá morte




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4 de março de 2011

Magia de Gaia


Aconteceu em abril, maio de 2009, em Antonina- Paraná- Brasil 


Moro numa área ladeada pela floresta subtropical úmida,  chamada Mata Atlântica, onde há uma infinidade exuberante de seres vivos.  Tanto em espécies vegetais quanto em espécies animais.
E aqui no meu jardim, tenho me deparado com umas pequenas libélulas douradas de rara beleza...  Nas tardes de sol elas ficam a brincar no jardim e aparecem de pertinho, na minha janela, na porta da sala adentro.  São grupos que variam... De 2 e 3. Depois 4, 6...                                
Tão bonitas! Todos os dias durante aproximadamente dois meses isso vem    acontecendo...                                               
Hoje choveu aqui, mas espero  vê-las novamente.  
Bem, se não voltarem, será o 1º dia sem o ar de sua graça.
Sabe, tive um “contato” com uma delas, que pousou sobre o meu dedo indicador e ficou ali, parada com as duas patinhas dianteiras juntas , como em oração, olhando para mim, depois pousou na minha blusa no lado do coração e voou. Estou contando isso porque de fato aconteceu e sei que esses serezinhos raramente pousam em nós, pois são muito ligeiros.
Tenho um cristal bruto de citrino (quero ver se encontro a foto dele em um dos meus arquivos) que é praticamente da mesma cor que essas libélulas douradas que andam aparecendo por aqui. É de um amarelo escuro meio avermelhado, transparente com pontinhos castanhos por dentro...  Exatamente como são as asinhas delas.  A diferença é que as asinhas brilham como ouro, como a cor de outra pedra que também achei no meu quintal durante esse mês que já passou, uma espécie de ouro de rio.
Uso essas pedras no meu chakra do ventre e do umbigo para acalmar à noite, antes de dormir.  Dia desses passados, na egrégora de Saint Germain que frequento - aqui em Morretes, cidade ao lado -  uma senhora  rotacionou os meus chakras no sentido horário  com imposição das mãos e disse que meu ventre se iluminou,  num redemoinho de luz... Saí de lá quase flutuando, de tão leve!
Ai ! É muita experiência nova que tenho ali.  Sensações inefáveis que ando tendo. Um bem-estar indescritível quando saio daquele lugar. É muito sutil... É tanta coisa que experimento, que algumas delas precisam até  ficar em segredo.
Isso porque eu nem comecei a contar da Constelação de Órium, que é para lá que tenho direcionado minha Kundalini.
Sim, também trabalhamos kundalini nesse grupo.

Mas voltando às libélulas...

Os biólogos afirmam que as matas tropicais têm dessas coisas. Que os  bichos que nela nascem são altamente mutantes. Que aparecem espécies novas o tempo inteiro... Eu realmente nunca havia encontrado libélulas tão belas! Ando pela cidade inteira e em outros quintais e só as encontro aqui.
Sei que não são minhas, tampouco  foi eu quem as inventou,  mas fico aqui só viajando... Sonhando acordada. Só sei que são minhas amigas!

Há tanto o que se maravilhar com a natureza viva!

Viva Gaia. Viva o Sagrado Feminino. 






 Nayre


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11 de fevereiro de 2011

Enigmas da Culpa



De que falamos, quando falamos em culpa?



Observação do patrocinador: 

Antes de ler e comentar qualquer coisa sobre o texto, pretendo deixar claro que este blog não aprova qualquer tipo de tratamento ofensivo contra qualquer pessoa ou animal. O texto abaixo é puramente científico e retrata a realidade. Também quero lembrar ao leitor que o sacrifício de ratos em laboratórios, embora tenha ajudado imensamente a ciência a encontrar a cura de muitas doenças, é uma técnica eficaz da nossa época, e como tudo na ciência, esta técnica está sujeita a mudanças. Espero que logo possamos dizer que isto não é mais necessário. Porém, hoje, questionada sobre a minha ética como ambientalista e vegetariana por um vegano num site de relacionamento sobre a  postagem, não hesitei em responder em tom ríspido: "Quando você for se tratar com seu médico pense em todas as cobaias que foram sacrificadas para que você continuasse vivo". Portanto, é muita demagogia falar que eu aqui não tenho ética com esta publicação, quando o outro lá que se assume publicamente vegano, usufrui dos bebefícios que a ciência conquistou por esses meios, me acusa de forma alusiva pelo MUNDO ainda ser do jeito que é.

Espero a compreensão e se esta não for possível, o respeito pelo menos.

Nayre Fernandes Martins.

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      -> ->      Mas o que é, mesmo, a culpa? Podemos conceituar a culpa como uma acusação ou auto-acusação, por um crime, uma falta ou ato inadequado,  reais ou imaginários. Este conceito tem vários “ou”, o que é uma evidência de imprecisão. Mas imprecisão é uma constante neste tema tão antigo quanto conflituoso.
            É a culpa uma emoção ou um sentimento? Como veremos, a pergunta não é tão ociosa (ou preciosista) quanto parece. Para respondê-la precisamos definir nossos termos.
            O termo emoção provém do latim emotionem: ex, fora, para fora, e motio, movimento, ação. Daí surgiram termos similares nas línguas modernas européias. O uso do termo francês émotion data 1538. O inglês emotion é de 1579. O italiano emozione e o português emoção aparecem no começo do século XVII. Época muito significativa: o começo da modernidade, uma fase histórica que caracterizou-se pelas rápidas mudanças sociais, econômicas e culturais, pela afirmação do indivíduo ─ e de suas emoções. De fato, da acepção mais antiga, que era a de confusão, desordem, passou-se para uma outra: a agitação da mente ou do espírito. No século XIX a palavra passou a fazer parte do vocabulário da moderna psicologia, que então nascia.
            Variam as definições de emoção: fenômeno puramente biológico, puramente psicológico, ou uma mistura dos dois? É uma discussão que remonta a Descartes, para quem corpo e alma, ou espírito, eram entidades separadas, uma idéia contestada no mesmo século XVII por Spinoza: corpo e espírito, dizia ele, têm uma origem comum. Em relação à emoção propriamente dita, a maioria dos pesquisadores adota uma  posição intermediária, diferenciando entre emoções básicas, como o medo, na qual o fundamento biológico é evidente, e outras mais complexas, na qual o componente psicológico tem papel maior. Também variam as emoções básicas conforme o autor, mas medo, raiva e tristeza figuram na maioria das listas. Podemos definir emoção como um estado mental que, sem controle da consciência, mas por esta percebido, se origina do sistema nervoso e que desencadeia uma resposta de natureza psicológica e fisiológica. Ou, nas palavras do neurologista Antonio Damasio: reações naturais, automáticas, que visam, direta ou indiretamente, a preservar o corpo e assegurar o equilíbrio interno do organismo.
           A literatura de língua inglesa fala da definição de emoção segundo o modelo ABC, physiological arousal (mobilização fisiológica), behavioral expression (expressão comportamental, por exemplo, gestos) e conscious experience, experiência consciente da emoção. O primeiro e o segundo itens têm tradução corporal; assim, o medo se manifesta pela aceleração do coração e tensão muscular, a raiva de maneira similar, e a tristeza por um aperto na garganta.
            Onde se originam as emoções? Com os modernos estudos do cérebro, a pergunta está na ordem do dia, mas ela é mais antiga do que parece.Um pioneiro na área foi Franz Joseph Gall (1758 - 1828), neuroanatomista e fisiólogo alemão, criador da cranioscopia, depois rebatizada como frenologia (do grego phrenos, mente). Os frenólogos procuravam correlacionar traços da personalidade com as saliências cranianas. Assim, bossas frontais (aquelas que temos na testa) desenvolvidas seriam sinal de inteligência, de talendo. A isto alude até hoje o termo bossa; dizer que alguém tem bossa para o teatro é falar de uma vocação teatral.
            No século XX surgiu o conceito dos três cérebros ou cérebro triuno, estabelecido a partir dos anos cinqüenta pelo neurologista norte-americano Paul MacLean (e, desde então, modificado em função dos avanços da neurologia). Temos, diz ele, três cérebros em um, três cérebros que foram surgindo ao longo do processo evolutivo. O mais antigo é o cérebro reptiliano, que, como o nome diz, existe só nos répteis (cobras, jacarés). Compreende o tronco cerebral e porções do diencéfalo; seria responsável pelo funcionamento automático do organismo, no que diz respeito a respiração, circulação, reflexos, instintos. O mais novo é o neocórtex, ou cérebro neomamífero, que só existe nos primatas superiores; nos humanos, é responsável pelo conhecimento, pela lógica, pelo raciocínio, pela linguagem. Graças ao neocórtex podemos compreender o que está acontecendo, conectar informações de maneira racional, resolver problemas, fazer planos. O córtex e o neocórtex são divididos em partes chamadas lobos. O lobo frontal comanda as ações motoras, a fala, a imaginação, a consciência social, o pensamento simbólico, o cálculo, a memória de longo prazo. Não gera emoções, mas interpreta-as e articula a resposta psíquica para elas.
            Entre os dois cérebros estão cérebro paleomamífero, dos mamíferos inferiores, que surgiu a cerca de 70 milhões de anos. Ali localiza-se uma importante estrutura chamada amígdala (atenção: não é a da garganta...). A palavra vem do grego e quer dizer amêndoa, porque a amígdala tem a forma e o tamanho de uma amêndoa. É formada por um grupo de células nervosas localizadas profundamente no cérebro de vertebrados superiores, incluindo-se aí os humanos. A amígdala faz parte do sistema límbico (do latim limbus : borda, margem), que abrange as várias estruturas envolvidas na emoção, na motivação e na associação memória-emoção. O médico francês Paul Broca foi o primeiro a falar (em 1878) no grand lobe limbique, mas só em 1937 o americano James Papez correlacionou-o com a emoção; suas idéias foram retomadas e ampliadas por Maclaean. A emoção parece ser uma forma de alertar o cérebro para prestar atenção no que está acontecendo e reagir de acordo com as necessidades.
O sistema límbico funciona influenciando o sistema endócrino e o sistema nervoso autônomo, que controla a respiração, a circulação e outras funções. Está conectado com o córtex pré-frontal, uma área do cérebro que compatibiliza pensamento e ação com os objetivos da pessoa através de um processo de julgamento. No passado e ainda hoje, muitas doenças mentais eram tratadas pela secção cirúrgica desta área; a agitação e a agressividade cessam, mas a pessoa fica passiva e desmotivada.
            A amígdala desempenha um importante papel na gênese da emoção; por exemplo, o estímulo elétrico desta região desencadeia reações de medo. Ao contrário, macacos cuja amígdala foi retirada cirurgicamente (que maldade) parecem perder a capacidade de se atemorizar (capacidade sim; alerta-os contra riscos). Esta situação foi descrita em 1939 por Heinrich e Paul Bucy, que haviam removido os lobos temporais (onde se encontra a amígdala) de macacos. Observaram que os animais ficaram apáticos e que não pareciam temer inimigos naturais, como cobras. Ao contrário, mesmo depois de serem atacados por um ofídio, aproximavam-se deles de novo, como se não tivessem aprendido a lição, uma situação que recebeu o nome de "placidez" (placidity) mas que é, obviamente, muito diferente da placidez com que contemplamos uma paisagem repousante. O quadro completo envolve outros característicos e constitui a síndrome de Klüver-Bucy, que pode ocorrer muito raramente, em seres humanos que tiveram esta região cerebral afetada por doenças como encefalite.
            Em situações de emergência, portanto, é a amígdala que comanda a ação, através das emoções que criam um  estado de alerta no organismo; o córtex cerebral só pode funcionar quando cessa a tempestade emocional: só então surgem condições para a organização, análise e interpretação dos dados da realidade. Emoções podem ser provocadas em nós por uma agressão pessoal, por um cão que rosna ameaçador, por uma trovoada, enfim, por qualquer situação que mexa conosco, ou por qualquer pessoa que, por sua maneira de agir, provoque em nós uma comoção. Desempenham também papel importante na preservação do indivíduo e da espécie. Para Charles Darwin, as emoções foram se aperfeiçoando através da seleção natural, mas discute-se ainda se os animais  experimentam emoções ou se, no caso de isto acontecer, se as emoções experimentadas pelos animais são análogas às emoções dos humanos. Cresce constantemente o número de defensores desta tese (e que nela se baseiam para defender os direitos dos animais). Há fundamento para tanto: as reações orgânicas que acompanham as emoções estão presentes na escala animal. Observa Antonio Damasio que mesmo um ser unicelular como o paramécio foge quando encontra alguma anormalidade em seu ambiente: uma brusca variação de temperatura, um objeto que emite vibrações. Ascendendo na escala animal, encontramos espécies dotadas de sistema límbico, portanto teoricamente capazes de experimentar emoções. E também as conseqüência destas, como é o caso da desesperança aprendida (learned helplessness), situação descrita por Martin Seligman em 1965, baseado em experimento realizado na Universidade de Pennsylvania. Três cães recebiam choques elétricos, mas dois deles podiam interrompê-los acionando uma alavanca; o terceiro não. Provavelmente por causa do "desamparo', este cão desenvolveu sintomas análogos aos da depressão clínica em humanos. Mais: o mapeamento cerebral de animais deprimidos mostra o mesmo padrão encontrado em seres humanos com depressão.
       
          E sentimento, o que é? Podemos conceituá-lo como um estado de consciência, colorido pelo afeto, desencadeado por estímulos externos ou por memórias que nos levam a um cotejo da situação vivida por normas e ideais que previamente mantínhamos.


Diferenças entre emoção e sentimento 




. A emoção é mais "primitiva", surge mais precocemente no ser humano e é mais espontânea; o sentimento é mais tardio, modulado pela cultura, pelo modo de vida, pelo aprendizado pessoal. Aprendemos a ter sentimentos - com pais, professores, amigos, líderes espirituais, gurus, autoridades, cônjuges.
. A emoção tem expressão orgânica visível ou detectável, através de dosagens hormonais, por exemplo, ou do registro das alterações fisiológicas; na emoção, o organismo se move, e este movimento transparece, por exemplo, na expressão da face. O sentimento não é tão visível. A emoção é, portanto, mais pública, o sentimento é mais privado. A  emoção, de algum modo, nos conecta com o mundo. Já o sentimento, de algum modo, nos isola do mundo. Em seu ensaio O Inconsciente (1915), Freud salientou o fato de que a emoção é inevitavelmente percebida por nós, mas que temos sentimentos dos quais pouco ou nada sabemos. Antônio Damasio faz uma comparação artística: podemos extasiar-nos diante da Guernica, de Picasso, e esta será uma emoção estética, mas o sentimento só emergirá quando pensarmos naquilo que o quadro significa, o terror que foi a guerra na Espanha, da qual resultou o bombardeio da pequena cidade de Guernica. A especificidade humana resulta da linguagem, da memória organizada, do raciocínio complexo da capacidade de criar cultura e de criar uma História.
. O sentimento convive mais com o pensamento do que a emoção, porque emoções são necessariamente transitórias; nosso coração não poderia bater aceleradamente por dias, semanas ou anos, nossos hormônios não poderiam fluir indefinidamente. O sentimento é menos fugaz; pode às vezes durar a vida toda.

            A culpa tende para o sentimento. Não é fácil, olhando para uma pessoa, dizer se sente culpa. A culpa em si não faz a pessoa empalidecer, não acelera o seu coração, não a deixa transtornada. Mas, perguntará o leitor, se a culpa é um sentimento, se não é facilmente perceptível, como então o culpado de um crime pode ser identificado através do polígrafo, o detector de mentiras, através de registros fisiológicos? Em primeiro lugar, estamos falando de um fato objetivo que é o crime, e que a pessoa cometeu ou não - a culpa, neste caso, é muito diferente daquela que nasce de fantasias. Depois esses registros não dão conta da culpa em si, e sim da ansiedade a elas associada, ou seja, da emoção. Finalmente é preciso dizer que o método não goza de unanimidade, não são poucas  as restrições a ele feitas.
            Podemos, como vimos, partilhar emoções com os bichos. Mas, e sentimentos? Será que os animais sentem culpa? Num momento que provavelmente se deixa levar pela imaginação, Charles Darwin parece acreditar que sim: "Em determinadas épocas do ano", diz, em The Descent of Man (A descendência do homem, 1871), "as andorinhas são tomadas pelo desejo de migrar; ficam agitadas, barulhentas, reúnem-se em bandos. Quando a andorinha está cuidando dos filhotes, o instinto materno é provavelmente mais forte que o impulso de migração, mas quando este por fim prevalece, a ave alça vôo e abandona a prole. Chegando ao fim da longa jornada, e extinto o impulso, que agonia, que culpa, não sente esta mãe?"
            Interrogação que na verdade é uma afirmação, em apoio da qual, donos de cães dirão que às vezes os animais parecem demonstrar sentimento de culpa. Isto acontece quando o dono ralha com eles - por terem mastigado um sapato ou por terem urinado no tapete. Nestas circunstâncias, o animal classicamente baixa a cabeça e enfia o rabo entre as pernas (a expressão é uma tradicional metáfora para a humilhação resultante da culpa). Mas isto, segundo aqueles que entendem de bichos, é simplesmente uma resposta do animal ao tom de voz do dono. A dúvida, pois, subsiste, sobretudo por causa da incapacidade que têm os animais de se expressar sob a forma de palavras, e fundamenta a posição daqueles que sustentam que a culpa é, primordialmente e até prova em contrário, um atributo, ou um problema, dos humanos. O que é explicável, segundo Freud: abelhas e formigas conseguiram um equilíbrio entre a forma de organização existente em colméias e formigueiros e a função que ali desempenham os insetos; não há conflito, portanto não pode haver culpa.
            Diz Jerome Kagan, professor emérito de psicologia na Harvard e pioneiro da psicologia do desenvolvimento: " Os ratos de laboratório aparentemente podem sentir medo, surpresa ou desejo sexual. Mas há escassa evidência de que experimentem aquilo que chamamos de culpa." Kagan reporta-se à estrutura cerebral para explicar a razão pela qual a culpa seria exclusiva da espécie humana: "Com a evolução filogenética, o núcleo central da amígdala, estrutura crítica para a aquisição de reações de medo condicionado em animais, vai ficando cada vez menor, enquanto o núcleo basolateral e suas conexões com o o córtex pré-frontal aumentam." Ou seja: os animais podem ter emoções, que dependem da amígdala, mas as conexões da amígdala com o córtex pré-frontal, e portanto com a sede da consciência, só surgem depois, na escala animal. Continua Kagan: " Este fato, junto com a constatação de que os humanos, mas não os primatas, mostram sinais de perturbação ao violar padrões morais, significa que culpa e vergonha podem ser tão importantes quanto o medo no cotidiano humano, bem como na psicopatologia. A seleção natural favorece aqueles que têm este condicionamento embutido em seu ser. 

            Adendo* : "Na literatura psicanalítica, a vergonha é freqüentemente associada ao narcisismo (pessoas que têm traços narcísicos, estão convecidas de sua importância, acham-se "especiais", querem ser admiradas, são arrogantes) mostram-se vulneráveis a situações que causam vergonha, ao que o grupo vai pensar se ela errar. A culpa seria uma evolução do sentimento de vergonha social, pois enfatiza mais a auto-expressão individual da consciência, da necessidade de se fazer o que é bom e só, sem a necessidade de ser admirado."

O senso moral humano, que geralmente nos impede de agredir nossos semelhantes, é um produto único da evolução, mantido através da seleção natural, porque assegura a sobrevivência da espécie." Coisa que o poeta Archibald Mac Leish disse de outra maneira: "Without guilt/ What is a man? An animal, isn't he?  (Sem culpa / O que é um homem? Um animal, não é mesmo?)

Conclusão: o sentimento de culpa, coisa sem a qual a criatura não se acusa e nem é acusada, é atributo da espécie humana. Nenhuma andorinha apontará um dedo acusador (ou uma asa acusadora) para a colega que migrou deixando para trás os filhotes.

Fonte: Enigmas da Culpa - Moacyr Scliar