Este é um artigo que o Hiago publicou para uma revista vegana gringa chamada VegOut.
A Infraestrutura da Gentileza
Quando foi que se importar com o mundo começou a parecer afogamento?
Foi no verão em que o Pantanal pegou fogo e o céu de São Paulo ficou preto às três da tarde? Ou talvez antes — no ano em que parei de ver insetos espatifados no para-brisa e percebi que não conseguia lembrar quando isso tinha parado de acontecer?
Lá pelos meus vinte e poucos, desenvolvi um hábito: lia sobre mais uma catástrofe, sentia o peso dela se instalar no peito e depois... nada. Só estática. Os problemas eram tão gigantescos, tão emaranhados com sistemas que eu não conseguia tocar, que meu cérebro simplesmente desligava.
Eu não estava sozinho nisso. A maioria das pessoas que conheço vive alguma versão desse loop: se importar profundamente, se sentir impotente, recuar.
Mas eis o que comecei a perceber — esses problemas não são apenas grandes. Eles são grandes de um jeito que os protege. A Amazônia perde floresta do tamanho de cidades inteiras todo mês, e os fazendeiros que lucram com isso escrevem a política ambiental. Quando o sistema e sua destruição estão tão entrelaçados assim, onde é que você empurra?
A escala não é acidental. Quando tudo parece grande demais para tocar, a gente pode parar de tentar tocar qualquer coisa.
Enquanto eu ficava sentado atualizando os mesmos sites de notícias num loop — mais um incêndio, mais uma enchente, mais uma contagem de espécies caindo — sem realizar absolutamente nada além de alimentar minha própria sensação de impotência, meu avô estava na cozinha dele.
Magro e alto, cabelo e barba brancos, boina na cabeça como se nunca tivesse deixado de ser aquele militante sindical dos anos 70. Fumaça de charuto subindo em espiral até o teto. Rolling Stones tocando no rádio velho. Mãos firmes apesar da artrite, medindo arroz em potes de plástico. Fatiando legumes que tinha comprado na feira da manhã. Vapor subindo das panelas de feijão que começou a deixar de molho na noite anterior.
Vinte refeições. Toda quinta-feira. A mesma tábua de corte gasta. O mesmo porcionamento cuidadoso. O cheiro de alho e louro preenchendo a cozinha pequena.
Lembro de pensar: qual o sentido? Isso não resolve a questão dos moradores de rua. Não desafia o sistema econômico que cria isso. É só... vinte refeições. Vinte pessoas. Um velho que parece que deveria estar planejando revoluções, fazendo almoço.
Mas ele faz isso há dezessete anos.
Quando parei de procurar revoluções, comecei a ver revolucionários.
Eles estavam em lugares onde eu não tinha pensado em procurar. Não liderando movimentos nem construindo organizações. Apenas aparecendo, consistentemente, para um trabalho que parecia pequeno demais para importar.
Em 2018, um punhado de moradores do Morro da Formiga olhou para o terreno de encosta sem uso acima de suas casas na Zona Norte do Rio e viu algo diferente de espaço desperdiçado.
Não organizaram um protesto. Não escreveram um manifesto. Organizaram um mutirão — uma daquelas sessões em que os vizinhos aparecem com ferramentas e fazem o que precisa ser feito.
Plantaram verduras. Construíram canteiros elevados com garrafas PET recicladas. Começaram a ensinar crianças da escola municipal local sobre agroecologia. Chamaram de Espaço Formiga Verde.
Sem campanha nas redes sociais. Sem nota para a imprensa sobre justiça alimentar. Só vizinhos que queriam comida fresca e decidiram que podiam cultivá-la eles mesmos.
O que eu não sabia na época — o que levou anos observando projetos como esse — é como essas pequenas decisões se acumulam.
Eis o que de fato aconteceu no Formiga: a horta levou à gestão da água. Moradores que vinham cuidando de nascentes na encosta havia décadas (muito antes de a cidade fornecer infraestrutura hídrica) começaram a se coordenar mais formalmente. Alguém que sabia sobre compostagem por causa da família em Minas Gerais começou a ensinar. Crianças que aprenderam a plantar legumes começaram a medir árvores para o Inventário de Gases de Efeito Estufa do Rio.
Em poucos anos, a horta atraiu apoio de coletivos de permacultura. Eventualmente, de programas municipais. Mas começou com pessoas que olharam para uma encosta vazia e decidiram não esperar a permissão de ninguém.
Observei esse padrão se repetir. Em Manguinhos, outra parte da Zona Norte do Rio, moradores transformaram o que tinha sido uma das maiores "Cracolândias" da cidade — um terreno baldio dominado pelas drogas — em uma horta urbana. Hoje ela produz duas toneladas de alimento por mês. Diane da Silva, 69 anos, que trabalha lá desde 2013, disse a pesquisadores: "Essa horta caiu do céu. Significou que minha família não passou fome este ano."
Esse trabalho silencioso está acontecendo em todo lugar. Detroit construiu 2.500 hortas após a falência. Havana cultivou alimentos quando Cuba não conseguia importá-los. Paris e Singapura transformaram telhados em fazendas. Cidades diferentes, mesmo instinto: construir a infraestrutura de que você precisa quando o sistema não consegue fornecê-la.
Enquanto eu ficava sentado no meu apartamento atualizando notícias sobre incêndios, enchentes e espécies desaparecendo, sem realizar absolutamente nada além de aprofundar minha própria sensação de impotência, essas pessoas estavam aparecendo. Transformando terrenos abandonados em hortas, encostas erodidas em florestas, desespero no tipo de trabalho que você pode segurar com as mãos.
As alternativas se espalham não por campanhas, mas pela prática mais sem glamour que se possa imaginar: cuidar do mesmo pedaço de terra, semana após semana, ano após ano, até a horta mudar a forma como os vizinhos se relacionam, até uma encosta ficar estável o suficiente para as crianças aprenderem a medir suas árvores.
Meu avô com seus dezessete anos de refeições às quintas-feiras. Essas hortas com seus mutirões e sociedades de água e canteiros de garrafa PET. O acúmulo silencioso de alternativas que funcionam bem o suficiente para as pessoas continuarem aparecendo.
Às vezes as pessoas aparecem porque querem construir algo juntas. Organizam mutirões, cuidam de nascentes, ensinam crianças sobre compostagem.
Mas às vezes as pessoas aparecem por razões completamente diferentes.
O rush do almoço no Semente Girassol, um buffet vegano no centro de Curitiba, começa por volta do meio-dia. Operários de obra com botas empoeiradas fazem fila ao lado de funcionários de escritório de camisa social. O buffet se estende ao longo de uma parede — legumes assados, feijão com leite de coco, arroz temperado com cúrcuma, saladas frescas, farofa caseira. Menos de vinte reais e você come à vontade. Enche o prato quantas vezes quiser e senta numa das mesas compartilhadas onde desconhecidos se tornam companheiros temporários de almoço.
Não tem cartazes sobre direitos animais nas paredes. Nenhum panfleto sobre a indústria da carne. Só comida boa a preços que tornam mais fácil comer ali do que pegar um fast food na rua ao lado.
Comecei a ir lá anos atrás, num período em que eu contava moedas antes de ir ao mercado. Arroz e feijão em casa ficava monótono, mas eu não podia pagar refeições em restaurante e manter uma dieta vegana. O Semente Girassol mudou essa conta. Por menos que o preço de um sanduíche em outro lugar, eu podia comer o quanto precisasse — legumes que eu não teria comprado, preparos que eu não sabia fazer, nutrientes que eu não estava obtendo da minha cozinha limitada em casa.
O lugar me alimentou quando eu não teria condições de comer eticamente de outra forma. E vi a mesma coisa acontecer com as pessoas ao meu redor naquelas mesas compartilhadas. A maioria não era vegana. A maioria provavelmente não ia por razões éticas. Iam porque a comida era boa, barata e ali no meio do expediente.
Penso nos anos que passei armado com filmagens de matadouros, pronto para discutir em cada reunião de família. Eu tinha todos os argumentos morais. Todas as estatísticas sobre pecuária industrial e destruição ambiental. E o que de fato aconteceu? As pessoas começaram a me evitar.
Eu achava que se as pessoas simplesmente vissem o que eu via, mudariam imediatamente. O que eu não entendia é que ninguém muda quando se sente atacado.
Essa dona de restaurante entendeu algo que eu não entendia: ela tornou a alimentação à base de plantas tão acessível, tão deliciosa, tão barata que as pessoas escolhiam sem precisar se convencer de nada. Ela trabalha inteiramente dentro do sistema capitalista — administrando um negócio com fins lucrativos, competindo com outros pontos de almoço — e ainda assim provavelmente fez mais para mudar a forma como esta cidade come do que cem campanhas confrontativas poderiam ter feito.
Ela não está tentando desmantelar a indústria da alimentação. Está apenas fazendo a alternativa funcionar tão bem que as pessoas continuam voltando.
Às vezes a coisa mais radical que você pode fazer é exatamente isso. Não destruir o sistema, mas construir algo dentro dele que seja bom demais para ser ignorado.
Existem pessoas por aí bloqueando equipamento de construção para proteger florestas. Se acorrentando a portões de fábricas. Passando anos documentando crimes corporativos, entrando com processos que podem levar uma década para se resolver. Organizando protestos sabendo que podem enfrentar prisão, violência, coisas piores.
Continuo encontrando versões da mesma história: investigadores que não conseguem mais dormir por causa do que documentaram. Organizadores que lutam há quinze anos e não lembram a última vez que sentiram alegria. Pessoas fazendo um trabalho necessário que exige tudo.
A adrenalina, o confronto constante, o peso de saber que se você parar, algo terrível continua. Algumas pessoas conseguem sustentar isso por décadas. A maioria não consegue. Vi ativistas esgotarem completamente. Depressão. Exaustão tão profunda que mal conseguiam sair da cama. Alguns abandonaram o trabalho por completo, amargos pelo tanto que deram e pelo pouco que mudou.
As pessoas que venho descrevendo — meu avô, os moradores do Formiga, a dona do restaurante — encontraram uma fonte de combustível diferente. Não o fogo da indignação justa, mas algo mais silencioso. Algo renovável.
Eu não entendi isso até a primeira vez que fui com meu avô entregar refeições.
Dirigimos até os mesmos pontos que ele visitava havia anos. Em cada parada, alguém estava esperando. Observei rostos mudarem quando o viam chegando. O jeito como os olhos brilhavam. O jeito como uma senhora de seus setenta tocou o braço dele e disse que tinha pensado nele a semana inteira. Um jovem que pegou a marmita e depois ficou ali parado conversando por dez minutos sobre a semana dele, suas dificuldades, suas pequenas vitórias.
A gratidão que vi parecia muito maior do que aquilo que estávamos dando. Não eram transações. Eram conexões. Momentos breves em que as pessoas se sentiam vistas.
Comecei a aparecer quando podia. Resgatei uma cachorra que encontrei tremendo na Rua XV de Novembro, passei três dias achando um lar para ela com uma família que às vezes me manda fotos. Comecei a aparecer numa horta comunitária perto de casa — sem comandar nada, só ajudando quem precisa de um par de mãos extra. Capinando. Regando. Movendo terra. Duas horas a cada duas semanas, trabalhando ao lado de pessoas com quem mal converso mas de alguma forma me sinto conectado. Parei uma tarde para comprar uma cerveja para um morador de rua perto do meu apartamento — ele estava ali havia meses e eu nunca tinha realmente olhado para ele. Sentamos na calçada. Ele me contou sobre crescer no interior, trabalhar na construção, o acidente que o impossibilitou de trabalhar, o desmoronamento lento que veio depois. Quarenta minutos da vida dele que nunca vou esquecer.
O que torna isso sustentável não é o impacto — é a alegria. Essas pessoas não se sustentam na esperança de que o sistema vai mudar. Elas são alimentadas pelo trabalho em si.
Essa é a diferença. O ativismo que depende de vitória parece derrota toda manhã em que o sistema continua igual. Mas o trabalho que te alimenta não precisa de vitória para se sustentar.
Você provavelmente já está fazendo isso.
A porção extra que você faz quando cozinha porque seu vizinho mencionou que anda comendo mal. O jeito como você rega a planta do lado de fora do prédio que ninguém reivindica. Parar para dar informação a alguém que parece perdido em vez de fingir que não percebeu. Aparecer naquele compromisso toda semana mesmo estando cansado — o ensaio do coral, a limpeza do parque, as festas de aniversário do filho do amigo.
Você provavelmente descartou essas coisas como pequenas demais para contar. Eu também descartei.
Mas eis o que comecei a perceber desde que parei de me afogar em dados climáticos e comecei a prestar atenção no que as pessoas realmente fazem: a cidade está cheia de gente silenciosamente construindo infraestrutura que o sistema não fornece. A mulher que sempre leva comida extra para o escritório porque sabe que alguém está passando dificuldade. O vizinho que conserta coisas na rua sem pedir permissão. A pessoa que ensina a habilidade que sabe para qualquer um que peça.
Não são acidentes. São escolhas. Escolhas pequenas e repetidas que se acumulam em algo que os algoritmos não conseguem capturar e os governos não conseguem se apropriar.
Da próxima vez que sentir aquela sensação de afogamento — aquela paralisia quando as notícias ficam demais e os problemas parecem grandes demais — não pegue o celular para rolar por mais desastres. Perceba o que está de fato ao alcance do braço. Não metaforicamente. Não eventualmente. Agora mesmo, no seu espaço físico, no seu dia real.
O que precisa ser feito que você poderia simplesmente... fazer?
Talvez nada. Talvez você esteja esgotado e tudo bem. Mas talvez exista algo tão pequeno que você vem descartando como inútil. Uma planta que precisa de água. Um vizinho que poderia usar companhia. Uma habilidade que você poderia ensinar. Um pedaço de espaço público que poderia ficar melhor.
Não estamos esperando permissão, nem o momento perfeito, nem uma garantia de que vai importar em grande escala.
Estamos apenas construindo o que conseguimos alcançar.
Hiago é escritor e músico, com uma forte paixão por contar histórias. Ele dedica uma abordagem cuidadosa e atenta aos detalhes a cada projeto. Vegetariano e entusiasta das atividades ao ar livre, ele busca grande parte de sua inspiração na natureza frequentemente explorando-a de bicicleta e contemplando as belas paisagens de sua terra natal, no sul do Brasil.
Hiago Martins Pinheiro ( Tiê, Jago )
☆26/08/2000 +12/02/2026



