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19 de março de 2016

Afetos (bio)Políticos - Ódio

- por Rafael Lauro
Espinosa fez uma das grandes perguntas da filosofia: o que pode o corpo? E não é à toa que hoje o holandês é estudado no campo da Filosofia, Ciência, Política e Psicologia. Falamos demais da alma, mas esquecemos de perguntar e entender o que é um corpo e de que maneiras ele é capaz de ser, estar, agir.
Podemos dizer que poucos conceitos são potentes como os afetos de Espinosa. Eles abrem um enorme campo de análise para melhor nos relacionarmos com a vida. Não é apenas filosofia de gabinete, Espinosa está nas ruas, no dia a dia, na política, nas relações.  Através do conhecimento – o mais potente dos afetos – passamos a identificar com certa clareza quais são os afetos que  regem a nossa vida. Podemos entender melhor o funcionamento deste circuito dos afetos, o modo pelo qual um sentimento, um corpo, uma biologia, se torna inseparável da política.
O ódio é uma tristeza acompanhada da ideia de uma causa exterior” – Espinosa, Ética, parte III, definição dos afetos
Recentes fatos da política brasileira nos remetem imediatamente ao ódio. Por todos os lados, estamos cercados de bocas espumantes, veias saltadas e olhos fulminantes. As televisões não desligam, as rádios tagarelam impropérios, está na boca do povo: “Canalha, pulha, ladrão, vagabundo, corrupto, vigarista, cafajeste, patife”. Quais são as consequências de ter no ódio o afeto (bio)político fundamental?
A simplicidade de um afeto torna-se complexa conforme vai se espalhando. Uma pessoa nos causa tristeza e reagimos odiando aquela pessoa. Deixamos de lado todas as circunstâncias daquela afecção e ligamos a tristeza causada àquela pessoa, objeto ou fato. O ódio está ligado à tristeza, e quando ficamos tristes, a nossa capacidade de pensar diminui.
Tristes, temos cada vez mais ideias inadequadas. Quanto mais entristecidos nos tornamos, mais confusos se tornam os afetos. E assim passamos a odiar a chuva por que ela alaga as nossas ruas entupidas de cimento. Passamos a odiar nossos amigos quando estes não dizem aquilo que queremos ouvir. Passamos a odiar, em suma, tudo aquilo que não toma nosso partido. O ódio liga, faz a ponte entre o estado do meu corpo e o corpo exterior que me afetou. Ele não fala da relação, ele diz apenas do estado do meu corpo e procura uma causa.
Não há falta, o corpo sempre é preenchido por afecções, seja de tristeza ou de alegria! O que pode o ódio? Do que este afeto é capaz? Somos odiosos demais! Ligamos prontamente a tristeza a uma causa. Tão ingênuos. Como  saber as causas com tanta frequência? Muito mais frequente é estarmos perdidos, cansados ou distraídos. Tristes, só sabemos nos mover contra aquilo que odiamos. Ignoramos os conselhos de Zaratustra sobre a honra de se ter um inimigo. Abrimos a boca por pouca bobagem para cuspir mesmo que seja contra o vento. Manifestamo-nos pelo nada, mas contra tudo! Elegemos vilões sem heróis, pois não temos força para assumir a responsabilidade por nossas dores. Dividimos, separamos, excluímos, recortamos a realidade para o nosso mimo. Mia Couto escreveu sobre o mundo de quem tem medo, um mundo pequeno, cercado, em que nada fuja ao controle. O mundo de quem tem ódio é um mundo monocromático. Só há uma cor e oposto dela. Preto e branco; ou vermelho e azul.
Como nos movemos por este campo de afetos? “Quando a mente imagina aquelas coisas que diminuem ou refreiam a potência de agir do corpo, ela se esforça, tanto quanto pode, por se recordar de coisas que excluam a existência das primeiras” (Ética III, prop 13). Tornamo-nos saudosistas ou utópicos! “Amanhã ele vai ver! Ele me paga”, ou então “no meu tempo era diferente, antigamente não era assim!”. Ou pior: “Quem imagina que aquilo que odeia é afetado de tristeza, se alegrará; se, contrariamente, imagina que é afetado de alegria, se entristecerá” (Ética III, prop 23), Espinosa nos ensina que existem alegrias tristes, alegrar-se com a tristeza de alguém é um bom exemplo disso! Esforçamo-nos para que a coisa que odiamos seja afetada de tristeza e odiamos tudo aquilo que a afeta de alegria. Estas são apenas umas das consequências deste afeto.
Ao contrário do medo, que como afeto (bio)político paralisa; o ódio movimenta, mas por vias tortas, não como a alegria, que nos vincula com a vida. O ódio solta bestas ferozes e obedientes, instruídas para morder: “Esforça-se por afastar e destruir a coisa que odeia” (prop 13, corolário). Tristes, somos cada vez mais agressivos. Nasce a desonestidade intelectual e o interesse pelo entendimento raso. Difamamos, revidamos e fechamos os olhos para a pluralidade de posições, para a complexidade dos fatos, “A culpa é de fulano!”. Promovemos uma fé pelo unilateral e começamos a crer que tudo tem um lado só; e o nomeados de verdade. Acreditamos piamente em quem carrega nossa verdade sob os braços e a eles demonstramos nossa empatia, só a eles. Empatia seletiva é um recurso de proteção do próprio ódio, que se alia à mais profunda vontade de conservação. O ódio movimenta erupções: grandes demonstrações destrutivas sem nenhuma perspectiva de construção; a lava deixa o solo infértil.
Tristes, afirmamos cada vez menos. Tomamos gosto pela negação, o ódio tem a mesma propriedade do açúcar refinado: ele adoça e rouba o sabor. Nos afastamos da política de Espinosa, a da afirmação, a da constituição comum, baseada na alegria, na sinceridade e no amor; e vamos em direção a uma política de ódio, de negação, aquela que investe no poder e esquece-se da potência. A pergunta de Espinosa ainda é atual: o que pode um corpo? Para nós, cabe perguntar, o que pode um corpo inundado de tanto ódio? Pouco… pouquíssimo… ou quase nada.
Texto da série: Afetos (bio)Políticos

27 de agosto de 2013

ZARATUSTRA: DA ÁRVORE DA MONTANHA

Nietzsche, sobre aqueles que alcançam (ou arranjam pra si) rapidamente altos postos espirituais, elevados níveis de santidade ou pureza, e se tornam orgulhosos, levianos consigo e com os demais, ocultando de si e dos outros suas fraquezas, seus vícios e seus males.

Da Árvore da Montanha
Os olhos de Zaratustra tinham visto um mancebo que evitava a sua presença. E, uma tarde, ao atravessar sozinho as montanhas que rodeiam a cidade denominada "Vaca Malhada", encontrou esse mancebo sentado ao pé de uma árvore, dirigindo ao vale um olhar fatigado. Zaratustra agarrou a árvore a que o mancebo se encostava e disse: "Se eu quisesse sacudir esta árvore com as minhas mãos não poderia; mas o vento que não vemos açoita-a e dobra-a como lhe apraz. Também a nós mãos invisíveis nos açoitam e dobram rudemente".
A tais palavras, o mancebo ergueu-se assustado, dizendo: "Ouço Zaratustra, e positivamente estava a pensar nele".
"Por que te assustas? O que sucede à arvore sucede ao homem. Quanto mais se quer erguer para o alto e para a luz, mais vigorosamente enterra as suas raízes para baixo, para o tenebroso e profundo, para o mal".
"Sim; para o mal! - exclamou o mancebo - Como é possível teres descoberto a minha alma?"
Zaratustra sorriu e disse: "Há almas que nunca se descobrirão, a não ser que se principie por inventá-las".
"Sim; para o mal! - exclamou outra vez o mancebo. Dizias a verdade, Zaratustra. Já não tenho confiança em mim desde que quero subir às alturas, e já nada tem confiança em mim. A que se deve isto? Eu me transformo muito depressa: o meu hoje contradiz o meu ontem. Com freqüência salto degraus quando subo, coisa que os degraus não me perdoam. Quando chego em cima, sempre me encontro só. Ninguém me fala; o frio da solidão faz-me tiritar. Que é que quero, então, nas alturas? O meu desprezo e o meu desejo crescem a par; quanto mais me elevo mais desprezo o que se eleva? Como me envergonho da minha ascensão e das minhas quedas! Como me rio de tanto anelar! Como odeio o que voa! Como me sinto cansado nas alturas!"
O mancebo calou-se. Zaratustra olhou atento a árvore a cujo pé se encontravam e falou assim: "Esta árvore está solitária na montanha. Cresce muito sobranceira aos homens e aos animais. E se quisesse falar ninguém haveria que a pudesse compreender: tanto cresceu. Agora espera, e continua esperando. Que esperará, então? Habita perto demais das nuvens: acaso esperará o primeiro raio?"
Quando Zaratustra acabava de dizer isto, o mancebo exclamou com gestos veementes: "É verdade, Zaratustra: dizes bem. Eu ansiei por minha queda ao querer chegar às alturas, e tu eras o raio que esperava. Olha: que sou eu, desde que tu nos apareceste? A inveja aniquilou-me!" Assim falou o mancebo, e chorou amargamente. Zaratustra cingiu-lhe a cintura com o braço e levou-o consigo.
Depois de andarem juntos durante algum tempo, Zaratustra começou a falar assim: "Tenho o coração dilacerado. Melhor do que as tuas palavras, dizem-me os teus olhos todo o perigo que corres. Ainda não és livre, ainda procuras a liberdade. As tuas buscas desvelaram-te e envaideceram-te de maneira excessiva. Queres escalar a altura livre; a tua alma está sedenta de estrelas; mas também os teus maus instintos têm sede de liberdade. Os teus cães selvagens querem ser livres; ladram de prazer no seu covil quando o teu espírito tende a abrir todas as prisões. Para mim, és ainda um preso que sonha com a liberdade. Ai, a alma de presos assim torna-se prudente, mas também astuta e má. O que libertou o teu espírito necessita ainda purificar-se. Ainda lhe restam muitos vestígios de prisão e de lodo: é preciso, todavia, que a tua vista se purifique. Sim; conheço o teu perigo; mas por amor de mim te aconselho a não afastares para longe de ti o teu amor e a tua esperança!
Ainda te reconheces nobre, assim como nobre te reconhecem os outros, os que estão mal contigo e te olham com maus olhos. Fica sabendo que todos tropeçam com algum nobre no seu caminho. Também os bons tropeçam com algum nobre no seu caminho, e se lhe chamam bom é tão-somente para o pôr de lado. O nobre quer criar alguma coisa nobre e uma nova virtude. O bom deseja o velho e que o velho se conserve. O perigo do nobre, contudo, não é tornar-se bom, mas insolente, zombeteiro e destruidor. Ah, eu conheci nobres que perderam a sua mais elevada esperança. E depois caluniaram todas as elevadas esperanças. Agora têm vivido abertamente com minguadas aspirações, e apenas planejaram um fim de um dia para outro.
"O espírito é voluptuosidade" - diziam. E então o seu espírito quebrou as asas; arrastar-se-à agora de trás para diante, maculando tudo quanto consome. Noutro tempo pensavam fazer-se heróis; agora são folgazões. O herói é para ele aflição e espanto. Mas, por amor de mim e da minha esperança te digo: não expulses para longe de ti o herói que há na tua alma! Santifica a tua mais elevada esperança!"
Assim falou Zaratustra.

Replicado de Saindo da Matrix

1 de maio de 2013

Armadilhas da Linguagem



Diversas armadilhas ameaçam a compreensão originária da essencialização da linguagem. A primeira e mais ardilosa, engodo que cerceia e encerra toda a compreensão lógica, gramatical, linguística ou filológica da linguagem, é tratá-la como algo, um ente simplesmente dado ao nosso manuseio, passível de ser objetivamente compreendida e determinada.
Esta armadilha, por sua vez, sustenta o seu embuste na própria possibilidade gramatical de substantivar os verbos, o que foi denominada pelos gramáticos latinos de “modus infinitus”. No infinitivo, o verbo se transfere para a forma nominal do substantivo e, perdendo deste modo a sua referência com a ação, passa a ser compreendido como um ente; a ação se transforma em coisa, dando assim a ilusão de ser algo determinado. É o que ocorre, por exemplo, com o verbo jantar, na frase: “ o jantar está servido” – ele é de tal modo substantivado que torna-se difícil, é só a custo de um grande esforço, pensá-lo como ação, um verbo, e não como ente, um substantivo.
No caso de “linguagem”, assunto que agora investigamos, para nós de língua latina, essa armadilha é mais insidiosa, pois perdemos completamente a referência verbal deste substantivo, a medida que o nosso verbo falar já provém de uma outra raiz – o que não é o caso, p. ex., da língua grega antiga, onde logos corresponde a légein, ou da alemã, onde Sprache corresponde a sprechen. Distantes da referência com o falar, a linguagem possui para nós uma proximidade com a língua – “é uma coisa da boca”.
Neste sentido, conforme o propósito de Heidegger, o primeiro desafio para lograrmos uma compreensão do sentido grego (heraclítico) de logos como linguagem é, atentos a estas armadilhas, não entendermos a linguagem como substantivo – como algo, um ente simplesmente dado ao nosso manuseio, passível de ser objetivamente determinado -, mas pensarmos a linguagem na dinâmica que se perfaz como com-preensão no falar e no ouvir (no escrever e no ler). O nosso primeiro desafio consiste portanto em abdicarmos da intenção de entendermos o que é linguagem por meio de determinações lógicas, para, despojados do afã da certeza que só compreendem o que podem dominar, experimentarmos, na concordância de nosso pensamento, a compreensão heraclítica de linguagem. Precisamos ainda alertar para o perigo e outras armadilhas que, camufladas no pressuposto metafísico de que o discurso seja a expressão sonora que representa o real para a comunicação humana, também ameaçam a nossa compreensão originária de linguagem – e de homem.

O Assunto e o Caminho do Pensamento de Heidegger (Fernando Mendes Pessoa)

12 de março de 2012

- desmistificando as religiões | excelente texto :


Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta.


clic link: Sem Deus, tudo é permitido?

11 de fevereiro de 2011

Enigmas da Culpa



De que falamos, quando falamos em culpa?



Observação do patrocinador: 

Antes de ler e comentar qualquer coisa sobre o texto, pretendo deixar claro que este blog não aprova qualquer tipo de tratamento ofensivo contra qualquer pessoa ou animal. O texto abaixo é puramente científico e retrata a realidade. Também quero lembrar ao leitor que o sacrifício de ratos em laboratórios, embora tenha ajudado imensamente a ciência a encontrar a cura de muitas doenças, é uma técnica eficaz da nossa época, e como tudo na ciência, esta técnica está sujeita a mudanças. Espero que logo possamos dizer que isto não é mais necessário. Porém, hoje, questionada sobre a minha ética como ambientalista e vegetariana por um vegano num site de relacionamento sobre a  postagem, não hesitei em responder em tom ríspido: "Quando você for se tratar com seu médico pense em todas as cobaias que foram sacrificadas para que você continuasse vivo". Portanto, é muita demagogia falar que eu aqui não tenho ética com esta publicação, quando o outro lá que se assume publicamente vegano, usufrui dos bebefícios que a ciência conquistou por esses meios, me acusa de forma alusiva pelo MUNDO ainda ser do jeito que é.

Espero a compreensão e se esta não for possível, o respeito pelo menos.

Nayre Fernandes Martins.

***

      -> ->      Mas o que é, mesmo, a culpa? Podemos conceituar a culpa como uma acusação ou auto-acusação, por um crime, uma falta ou ato inadequado,  reais ou imaginários. Este conceito tem vários “ou”, o que é uma evidência de imprecisão. Mas imprecisão é uma constante neste tema tão antigo quanto conflituoso.
            É a culpa uma emoção ou um sentimento? Como veremos, a pergunta não é tão ociosa (ou preciosista) quanto parece. Para respondê-la precisamos definir nossos termos.
            O termo emoção provém do latim emotionem: ex, fora, para fora, e motio, movimento, ação. Daí surgiram termos similares nas línguas modernas européias. O uso do termo francês émotion data 1538. O inglês emotion é de 1579. O italiano emozione e o português emoção aparecem no começo do século XVII. Época muito significativa: o começo da modernidade, uma fase histórica que caracterizou-se pelas rápidas mudanças sociais, econômicas e culturais, pela afirmação do indivíduo ─ e de suas emoções. De fato, da acepção mais antiga, que era a de confusão, desordem, passou-se para uma outra: a agitação da mente ou do espírito. No século XIX a palavra passou a fazer parte do vocabulário da moderna psicologia, que então nascia.
            Variam as definições de emoção: fenômeno puramente biológico, puramente psicológico, ou uma mistura dos dois? É uma discussão que remonta a Descartes, para quem corpo e alma, ou espírito, eram entidades separadas, uma idéia contestada no mesmo século XVII por Spinoza: corpo e espírito, dizia ele, têm uma origem comum. Em relação à emoção propriamente dita, a maioria dos pesquisadores adota uma  posição intermediária, diferenciando entre emoções básicas, como o medo, na qual o fundamento biológico é evidente, e outras mais complexas, na qual o componente psicológico tem papel maior. Também variam as emoções básicas conforme o autor, mas medo, raiva e tristeza figuram na maioria das listas. Podemos definir emoção como um estado mental que, sem controle da consciência, mas por esta percebido, se origina do sistema nervoso e que desencadeia uma resposta de natureza psicológica e fisiológica. Ou, nas palavras do neurologista Antonio Damasio: reações naturais, automáticas, que visam, direta ou indiretamente, a preservar o corpo e assegurar o equilíbrio interno do organismo.
           A literatura de língua inglesa fala da definição de emoção segundo o modelo ABC, physiological arousal (mobilização fisiológica), behavioral expression (expressão comportamental, por exemplo, gestos) e conscious experience, experiência consciente da emoção. O primeiro e o segundo itens têm tradução corporal; assim, o medo se manifesta pela aceleração do coração e tensão muscular, a raiva de maneira similar, e a tristeza por um aperto na garganta.
            Onde se originam as emoções? Com os modernos estudos do cérebro, a pergunta está na ordem do dia, mas ela é mais antiga do que parece.Um pioneiro na área foi Franz Joseph Gall (1758 - 1828), neuroanatomista e fisiólogo alemão, criador da cranioscopia, depois rebatizada como frenologia (do grego phrenos, mente). Os frenólogos procuravam correlacionar traços da personalidade com as saliências cranianas. Assim, bossas frontais (aquelas que temos na testa) desenvolvidas seriam sinal de inteligência, de talendo. A isto alude até hoje o termo bossa; dizer que alguém tem bossa para o teatro é falar de uma vocação teatral.
            No século XX surgiu o conceito dos três cérebros ou cérebro triuno, estabelecido a partir dos anos cinqüenta pelo neurologista norte-americano Paul MacLean (e, desde então, modificado em função dos avanços da neurologia). Temos, diz ele, três cérebros em um, três cérebros que foram surgindo ao longo do processo evolutivo. O mais antigo é o cérebro reptiliano, que, como o nome diz, existe só nos répteis (cobras, jacarés). Compreende o tronco cerebral e porções do diencéfalo; seria responsável pelo funcionamento automático do organismo, no que diz respeito a respiração, circulação, reflexos, instintos. O mais novo é o neocórtex, ou cérebro neomamífero, que só existe nos primatas superiores; nos humanos, é responsável pelo conhecimento, pela lógica, pelo raciocínio, pela linguagem. Graças ao neocórtex podemos compreender o que está acontecendo, conectar informações de maneira racional, resolver problemas, fazer planos. O córtex e o neocórtex são divididos em partes chamadas lobos. O lobo frontal comanda as ações motoras, a fala, a imaginação, a consciência social, o pensamento simbólico, o cálculo, a memória de longo prazo. Não gera emoções, mas interpreta-as e articula a resposta psíquica para elas.
            Entre os dois cérebros estão cérebro paleomamífero, dos mamíferos inferiores, que surgiu a cerca de 70 milhões de anos. Ali localiza-se uma importante estrutura chamada amígdala (atenção: não é a da garganta...). A palavra vem do grego e quer dizer amêndoa, porque a amígdala tem a forma e o tamanho de uma amêndoa. É formada por um grupo de células nervosas localizadas profundamente no cérebro de vertebrados superiores, incluindo-se aí os humanos. A amígdala faz parte do sistema límbico (do latim limbus : borda, margem), que abrange as várias estruturas envolvidas na emoção, na motivação e na associação memória-emoção. O médico francês Paul Broca foi o primeiro a falar (em 1878) no grand lobe limbique, mas só em 1937 o americano James Papez correlacionou-o com a emoção; suas idéias foram retomadas e ampliadas por Maclaean. A emoção parece ser uma forma de alertar o cérebro para prestar atenção no que está acontecendo e reagir de acordo com as necessidades.
O sistema límbico funciona influenciando o sistema endócrino e o sistema nervoso autônomo, que controla a respiração, a circulação e outras funções. Está conectado com o córtex pré-frontal, uma área do cérebro que compatibiliza pensamento e ação com os objetivos da pessoa através de um processo de julgamento. No passado e ainda hoje, muitas doenças mentais eram tratadas pela secção cirúrgica desta área; a agitação e a agressividade cessam, mas a pessoa fica passiva e desmotivada.
            A amígdala desempenha um importante papel na gênese da emoção; por exemplo, o estímulo elétrico desta região desencadeia reações de medo. Ao contrário, macacos cuja amígdala foi retirada cirurgicamente (que maldade) parecem perder a capacidade de se atemorizar (capacidade sim; alerta-os contra riscos). Esta situação foi descrita em 1939 por Heinrich e Paul Bucy, que haviam removido os lobos temporais (onde se encontra a amígdala) de macacos. Observaram que os animais ficaram apáticos e que não pareciam temer inimigos naturais, como cobras. Ao contrário, mesmo depois de serem atacados por um ofídio, aproximavam-se deles de novo, como se não tivessem aprendido a lição, uma situação que recebeu o nome de "placidez" (placidity) mas que é, obviamente, muito diferente da placidez com que contemplamos uma paisagem repousante. O quadro completo envolve outros característicos e constitui a síndrome de Klüver-Bucy, que pode ocorrer muito raramente, em seres humanos que tiveram esta região cerebral afetada por doenças como encefalite.
            Em situações de emergência, portanto, é a amígdala que comanda a ação, através das emoções que criam um  estado de alerta no organismo; o córtex cerebral só pode funcionar quando cessa a tempestade emocional: só então surgem condições para a organização, análise e interpretação dos dados da realidade. Emoções podem ser provocadas em nós por uma agressão pessoal, por um cão que rosna ameaçador, por uma trovoada, enfim, por qualquer situação que mexa conosco, ou por qualquer pessoa que, por sua maneira de agir, provoque em nós uma comoção. Desempenham também papel importante na preservação do indivíduo e da espécie. Para Charles Darwin, as emoções foram se aperfeiçoando através da seleção natural, mas discute-se ainda se os animais  experimentam emoções ou se, no caso de isto acontecer, se as emoções experimentadas pelos animais são análogas às emoções dos humanos. Cresce constantemente o número de defensores desta tese (e que nela se baseiam para defender os direitos dos animais). Há fundamento para tanto: as reações orgânicas que acompanham as emoções estão presentes na escala animal. Observa Antonio Damasio que mesmo um ser unicelular como o paramécio foge quando encontra alguma anormalidade em seu ambiente: uma brusca variação de temperatura, um objeto que emite vibrações. Ascendendo na escala animal, encontramos espécies dotadas de sistema límbico, portanto teoricamente capazes de experimentar emoções. E também as conseqüência destas, como é o caso da desesperança aprendida (learned helplessness), situação descrita por Martin Seligman em 1965, baseado em experimento realizado na Universidade de Pennsylvania. Três cães recebiam choques elétricos, mas dois deles podiam interrompê-los acionando uma alavanca; o terceiro não. Provavelmente por causa do "desamparo', este cão desenvolveu sintomas análogos aos da depressão clínica em humanos. Mais: o mapeamento cerebral de animais deprimidos mostra o mesmo padrão encontrado em seres humanos com depressão.
       
          E sentimento, o que é? Podemos conceituá-lo como um estado de consciência, colorido pelo afeto, desencadeado por estímulos externos ou por memórias que nos levam a um cotejo da situação vivida por normas e ideais que previamente mantínhamos.


Diferenças entre emoção e sentimento 




. A emoção é mais "primitiva", surge mais precocemente no ser humano e é mais espontânea; o sentimento é mais tardio, modulado pela cultura, pelo modo de vida, pelo aprendizado pessoal. Aprendemos a ter sentimentos - com pais, professores, amigos, líderes espirituais, gurus, autoridades, cônjuges.
. A emoção tem expressão orgânica visível ou detectável, através de dosagens hormonais, por exemplo, ou do registro das alterações fisiológicas; na emoção, o organismo se move, e este movimento transparece, por exemplo, na expressão da face. O sentimento não é tão visível. A emoção é, portanto, mais pública, o sentimento é mais privado. A  emoção, de algum modo, nos conecta com o mundo. Já o sentimento, de algum modo, nos isola do mundo. Em seu ensaio O Inconsciente (1915), Freud salientou o fato de que a emoção é inevitavelmente percebida por nós, mas que temos sentimentos dos quais pouco ou nada sabemos. Antônio Damasio faz uma comparação artística: podemos extasiar-nos diante da Guernica, de Picasso, e esta será uma emoção estética, mas o sentimento só emergirá quando pensarmos naquilo que o quadro significa, o terror que foi a guerra na Espanha, da qual resultou o bombardeio da pequena cidade de Guernica. A especificidade humana resulta da linguagem, da memória organizada, do raciocínio complexo da capacidade de criar cultura e de criar uma História.
. O sentimento convive mais com o pensamento do que a emoção, porque emoções são necessariamente transitórias; nosso coração não poderia bater aceleradamente por dias, semanas ou anos, nossos hormônios não poderiam fluir indefinidamente. O sentimento é menos fugaz; pode às vezes durar a vida toda.

            A culpa tende para o sentimento. Não é fácil, olhando para uma pessoa, dizer se sente culpa. A culpa em si não faz a pessoa empalidecer, não acelera o seu coração, não a deixa transtornada. Mas, perguntará o leitor, se a culpa é um sentimento, se não é facilmente perceptível, como então o culpado de um crime pode ser identificado através do polígrafo, o detector de mentiras, através de registros fisiológicos? Em primeiro lugar, estamos falando de um fato objetivo que é o crime, e que a pessoa cometeu ou não - a culpa, neste caso, é muito diferente daquela que nasce de fantasias. Depois esses registros não dão conta da culpa em si, e sim da ansiedade a elas associada, ou seja, da emoção. Finalmente é preciso dizer que o método não goza de unanimidade, não são poucas  as restrições a ele feitas.
            Podemos, como vimos, partilhar emoções com os bichos. Mas, e sentimentos? Será que os animais sentem culpa? Num momento que provavelmente se deixa levar pela imaginação, Charles Darwin parece acreditar que sim: "Em determinadas épocas do ano", diz, em The Descent of Man (A descendência do homem, 1871), "as andorinhas são tomadas pelo desejo de migrar; ficam agitadas, barulhentas, reúnem-se em bandos. Quando a andorinha está cuidando dos filhotes, o instinto materno é provavelmente mais forte que o impulso de migração, mas quando este por fim prevalece, a ave alça vôo e abandona a prole. Chegando ao fim da longa jornada, e extinto o impulso, que agonia, que culpa, não sente esta mãe?"
            Interrogação que na verdade é uma afirmação, em apoio da qual, donos de cães dirão que às vezes os animais parecem demonstrar sentimento de culpa. Isto acontece quando o dono ralha com eles - por terem mastigado um sapato ou por terem urinado no tapete. Nestas circunstâncias, o animal classicamente baixa a cabeça e enfia o rabo entre as pernas (a expressão é uma tradicional metáfora para a humilhação resultante da culpa). Mas isto, segundo aqueles que entendem de bichos, é simplesmente uma resposta do animal ao tom de voz do dono. A dúvida, pois, subsiste, sobretudo por causa da incapacidade que têm os animais de se expressar sob a forma de palavras, e fundamenta a posição daqueles que sustentam que a culpa é, primordialmente e até prova em contrário, um atributo, ou um problema, dos humanos. O que é explicável, segundo Freud: abelhas e formigas conseguiram um equilíbrio entre a forma de organização existente em colméias e formigueiros e a função que ali desempenham os insetos; não há conflito, portanto não pode haver culpa.
            Diz Jerome Kagan, professor emérito de psicologia na Harvard e pioneiro da psicologia do desenvolvimento: " Os ratos de laboratório aparentemente podem sentir medo, surpresa ou desejo sexual. Mas há escassa evidência de que experimentem aquilo que chamamos de culpa." Kagan reporta-se à estrutura cerebral para explicar a razão pela qual a culpa seria exclusiva da espécie humana: "Com a evolução filogenética, o núcleo central da amígdala, estrutura crítica para a aquisição de reações de medo condicionado em animais, vai ficando cada vez menor, enquanto o núcleo basolateral e suas conexões com o o córtex pré-frontal aumentam." Ou seja: os animais podem ter emoções, que dependem da amígdala, mas as conexões da amígdala com o córtex pré-frontal, e portanto com a sede da consciência, só surgem depois, na escala animal. Continua Kagan: " Este fato, junto com a constatação de que os humanos, mas não os primatas, mostram sinais de perturbação ao violar padrões morais, significa que culpa e vergonha podem ser tão importantes quanto o medo no cotidiano humano, bem como na psicopatologia. A seleção natural favorece aqueles que têm este condicionamento embutido em seu ser. 

            Adendo* : "Na literatura psicanalítica, a vergonha é freqüentemente associada ao narcisismo (pessoas que têm traços narcísicos, estão convecidas de sua importância, acham-se "especiais", querem ser admiradas, são arrogantes) mostram-se vulneráveis a situações que causam vergonha, ao que o grupo vai pensar se ela errar. A culpa seria uma evolução do sentimento de vergonha social, pois enfatiza mais a auto-expressão individual da consciência, da necessidade de se fazer o que é bom e só, sem a necessidade de ser admirado."

O senso moral humano, que geralmente nos impede de agredir nossos semelhantes, é um produto único da evolução, mantido através da seleção natural, porque assegura a sobrevivência da espécie." Coisa que o poeta Archibald Mac Leish disse de outra maneira: "Without guilt/ What is a man? An animal, isn't he?  (Sem culpa / O que é um homem? Um animal, não é mesmo?)

Conclusão: o sentimento de culpa, coisa sem a qual a criatura não se acusa e nem é acusada, é atributo da espécie humana. Nenhuma andorinha apontará um dedo acusador (ou uma asa acusadora) para a colega que migrou deixando para trás os filhotes.

Fonte: Enigmas da Culpa - Moacyr Scliar


25 de dezembro de 2009

Androginia





O objetivo da homossexualidade é a desconstrução da família tradicional, com raízes no liberalismo teológico, no feminismo extremado e na espiritualidade do neo paganismo a que assistimos.
Hoje gostaria de ir um pouco mais longe nas marcas pagãs da nossa sociedade que têm ressuscitado um culto da androginia. Desde sempre, que o paganismo andou de mãos dadas com o sistema religioso andrógino.

Mel Gibson, na sua “Paixão”, retratou de forma genial a figura do diabo. Sibilino e escorregadio, insinuante e provocante... bonito. Bonito mesmo! E... andrógino. Aquela cena misteriosa quando o diabo leva ao colo e acarinha uma criança envelhecida, o que significará? Bem, primeiro o diabo não acarinha nada! Será a inocência perdida que ele carrega!? Será a criação por redimir, e que mais tarde é restaurada por aquela lágrima divina que irá despoletar todos os fenômenos naturais? Pode ser. Visto que quando o diabo grita alucinado e derrotado, já não tem nada ao colo. A putrefação da criação e da humanidade escaparam-lhe. Com a morte de Cristo tem início uma restauração cósmica que terá a sua apoteose nos novos céus e nova terra. Mas, mesmo aquele ser aberrante e abjeto, ao colo de satanás é um andrógino ontológico.

Já na época Suméria (1800 AC) havia sacerdotes andróginos associados ao culto da deusa Ishtar. A razão do seu culto era porque a deusa tinha “transformado a sua masculinidade em feminilidade”, e funcionavam numa posição ambígua entre o mito e a realidade.

Várias formas de androginia são encontradas na Síria e na Ásia Menor no 3º século AC, mas a sua expressão mais clara aparece durante o Império Romano. Está bem documentado que a Grande Mãe Cibele tinha sacerdotes andróginos chamados Galli que se castravam como ato de adoração permanente à deusa. Uma versão de Cibele encontra-se em Éfeso, onde Paulo fundou uma Igreja, sob o nome de Artémis. Na Síria a Cibele tem o nome de Rhea. Os ritos de iniciação para o culto a Cibele ou a Rhea, incluíam o batismo no sangue de um touro morto na arena. No fim da cerimônia por vezes os “poderes genitais” do touro eram oferecidos à mãe dos deuses. Mais uma prova da emasculação do macho diante da divindade feminina. Não há muitas dúvidas de que este ritual era uma reprodução do culto mítico egípcio a Isís, em que o irmão/amante Osíris é morto e o seu corpo cortado aos bocados. Isís, junta os pedaços do corpo do seu amante, exceto o pênis que é comido por caranguejos, e magicamente restaura-o à vida. Por outras palavras, mesmo na morte o macho ideal é emasculado, como os Galli em vida.

Há razões para acreditar que uma forma antiga de Gnosticismo, chamado Hermetismo, influenciou o Ocidente na Idade Média, revelando-se na espiritualidade mística da Alquimia. Assim, o alquimista espiritual transformou-se naquele que “sabe segredos”. Embora não houvesse nenhuma manifestação sexual explícita, o juntar dos opostos (fenômeno tão querido dos espiritualistas da Nova Era) era visto como um casamento sagrado, cujo fruto era a “pedra filosofal”. Por vezes o fruto aparece representado como um “filho da obra”, apresentando-se com o nome de Andrógino Hermético. Um ser autenticamente “dois-em-um”. No mínimo, haverá aqui uma androginização ritual.

A herança moderna da Alquimia é a Teosofia. A sua fundadora, Madame Blavatsky, mantinha uma relação lésbica dominadora com a sua sucessora Annie Besant. Aleister Crowley e Charles Leadbeater, notáveis homossexuais, continuaram a obra da fundadora iniciando a liga pagã da 'Ordem Hermética da Aurora Dourada' (uma  distorção da verdadeira Aurora Dourada que mencionam os rosacrucianos). As suas atividades eram abertamente uma propaganda da sua espiritualidade pagã.

Falta o espaço para mencionar variadíssimas manifestações de androginia nos cultos Africanos, com os “sacerdotes assexuados vestidos e comportando-se como mulheres”; nos feiticeiros da Amazônia; nos bruxos Celtas; e na espiritualidade Hindu, com o Yoga Tântrico. Mircea Eliade explica: “quando Shakti (uma divindade hindu), que dorme na forma duma serpente (kundalini), na base do seu corpo, é acordada por certas técnicas yogâmicas, ela mexe-se através das chakras (mediadores de energia) até ao topo da cabeça, onde habita Shiva (outra divindade hindu), e une-se a ele”. O praticante de yoga, por técnicas poderosas de meditação sexual/espiritual, é assim transformado num tipo de andrógino. Também no Budismo o verdadeiro humano, o arquétipo, é chamado bodhiasattva, e é andrógino.

É interessante notar que todos estes cultos pagãos têm em comum, para além da androginia, o comportamento levitacional, a auto mutilação, e a encarnação em animais. Também há uma habilidade na comunicação com o mortos. Emily Culpepper, ex-batista, agora uma bruxa lésbica pagã, diz o seguinte: “o poder das bruxas, das sibilas, e dos druidas, emerge da sua capacidade de comunicar com os não humanos: forças extraterrestres e subterrâneas, e com o mundo espírita dos mortos”.

São evidências sóbrias, as que enunciei. O paganismo da nossa sociedade vem vestido de sexualidade pagã. Dito doutra forma: a homossexualidade não será tanto uma questão biológica ou social, mas sim a expressão prática de espiritualidades pagãs tão velhas como o mundo. É cada vez mais evidente que um compromisso religioso vem acompanhado de uma prática sexual bem definida. (veja-se só o escândalo na América dos padres sem castidade)

Texto de apoio: “Tratado de História das Religiões, Mircea Eliade" - De Samuel Nunes.